O Homem que Amava Demais

Dezembro 5, 2006 por João Ferreira Dias

Numa cidade qualquer do nosso tempo vivia um homem que amava demais. Uns chamavam-lhe "pinga amor", outros de louco o apelidavam. Desde cedo amou desesperadamente, viveu romances ficcionados, platónicos, em cada frase e gesto da enamorada. A felicidade para ele estava no pequeno prazer de se apaixonar. O nervoso no estômago, as noites mal dormidas, o olhar permanente para o telemóvel, o abrir e fechar do e-mail permanente, o cheiro a perfume das amadas no ar quando aquela música tocava no rádio.

Amava e amou a cada instante. Em cada esquina sabia que podia encontrar uma nova paixão, um novo romance…As noites mal dormidas passava-as a escrever poesia, poemas de amor, cartas de enamorado…

Do nada — como assim deve ser — encontrou a mulher que o correspondeu. Cada poema seu era um hino, cada gesto era retribuído, cada jura tinha uma jura à espera.

E amou como nunca, amou mais do que esperava. Amou cegamente. Mas o seu coração era grande demais. Descobriu que o que o movia não era o amor, não era isso que lhe dava sentido à vida. Era a paixão. Estar apaixonado dava-lhe asas, fazia-o voar, era o sangue que lhe aquecia o corpo.

Amou a mulher que tinha mas apaixonou-se por olhares, rostos e perfumes que cruzou. Apaixonou-se pelo mistério da permanente descoberta, pelo desconhecido…abriu o seu coração a cada coração que se insinuava abrir. É um poeta, um enamorado, um pintor de sonhos.

Hoje continua por aí, nos bares, nas ruas desertas, em cada esquina, a apaixonar-se a cada instante, a sentir assim a vida fluir-lhe nas veias.É um homem, dizem algumas mulheres, como todos, infiel. Mas ele não é assim, ele transcende a fidelidade porque o seu compromisso é com a paixão. 

O Rapaz que Morava na Lua

Novembro 5, 2006 por João Ferreira Dias

Há muito tempo atrás, antes do meu avô ser criança, havia um rapaz que morava na Lua. Era filho da noite e do tempo e chamavam-lhe Ephen, o rapaz da lua. Saltitava, no doce encanto da aurora, de estrela em estrela, qual pastor e guardião.

Vestia uma capa preta comprida e na cabeça um chapéu de abas largas e pontiagudo. Fazia-se acompanhar, para todo o lado, por uma flauta dourada que diziam ser encantada.

Nunca ninguém o tinha visto descer da lua à terra mas todos comentavam que um amigo de um amigo de um amigo o tinha visto no mercado sozinho. Havia até quem dissesse que era ele o estranho e calado rapaz, de cara coberta, que tocava flauta nas feiras pedindo esmola.

Ninguém sabia como ele tinha chegado à lua ou até mesmo se ele lá tinha nascido. Aparentava não ter mais do que sete anos mas na verdade ele tinha vivido quase desde sempre. Ele era o espírito das crianças, a brincadeira.

Vivia sozinho na lua e tinha as estrelas por companhia. Toda a noite tocava na sua flauta encantada para manter a lua acordada e para que as estrelas não se perdessem. Ainda hoje, nas noites calmas de verão, em que mal se ouve a brisa assobiar, em que o céu está limpo, se ficarmos calados e quietos podemos ver o brilho da sua flauta no céu e ouvir o som da sua melodia.

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33 anos de receios

Outubro 24, 2006 por João Ferreira Dias

Tinha 33 anos e poucas vezes tinha saído de casa. Era demasiado receosa para dar o passo de entrar no mundo. Receava viver porque se vive-se poderia sofrer, receava sair de casa porque se saísse poderia acontecer-lhe algo de mau. Claro que ela esquecia o mais importante: se saísse poderia acontecer-lhe algo de bom.

Por não ousar não conhecia o cheiro da terra molhada depois de uma chuva intensa, por não ir não conhecia a sensação do frio numa manhã cinzenta junto ao cais, por não seguir não sabia o que era o sol de verão e o aroma do mar. Por ter optado por não viver a vida olhava-a do vidro do seu quarto. Lá fora o reboliço da cidade seguia indiferente à “vigia da vida” na janela. Registava tudo no seu blogue também ele anónimo porque não ousava ter leitores e falar da vida.

A sua realidade era aquele que lhe chegava pela televisão, “terrível mundo” pensava enquanto sentia ter feito a escolha certa – não sair de casa. As alegrias vinham-lhe dos sonhos que construía em redor de um qualquer romance que lia, daqueles que tinha na prateleira. Romances antigos. Adormecia sem ter cansaço e comia sem ter fome. A vida passou-lhe ao lado. 

Rabiscar

Outubro 23, 2006 por João Ferreira Dias

Neste blogue irão nascer uma mão cheia de contos…tecer mitos dá cor à vida.