Numa cidade qualquer do nosso tempo vivia um homem que amava demais. Uns chamavam-lhe "pinga amor", outros de louco o apelidavam. Desde cedo amou desesperadamente, viveu romances ficcionados, platónicos, em cada frase e gesto da enamorada. A felicidade para ele estava no pequeno prazer de se apaixonar. O nervoso no estômago, as noites mal dormidas, o olhar permanente para o telemóvel, o abrir e fechar do e-mail permanente, o cheiro a perfume das amadas no ar quando aquela música tocava no rádio.
Amava e amou a cada instante. Em cada esquina sabia que podia encontrar uma nova paixão, um novo romance…As noites mal dormidas passava-as a escrever poesia, poemas de amor, cartas de enamorado…
Do nada — como assim deve ser — encontrou a mulher que o correspondeu. Cada poema seu era um hino, cada gesto era retribuído, cada jura tinha uma jura à espera.
E amou como nunca, amou mais do que esperava. Amou cegamente. Mas o seu coração era grande demais. Descobriu que o que o movia não era o amor, não era isso que lhe dava sentido à vida. Era a paixão. Estar apaixonado dava-lhe asas, fazia-o voar, era o sangue que lhe aquecia o corpo.
Amou a mulher que tinha mas apaixonou-se por olhares, rostos e perfumes que cruzou. Apaixonou-se pelo mistério da permanente descoberta, pelo desconhecido…abriu o seu coração a cada coração que se insinuava abrir. É um poeta, um enamorado, um pintor de sonhos.
Hoje continua por aí, nos bares, nas ruas desertas, em cada esquina, a apaixonar-se a cada instante, a sentir assim a vida fluir-lhe nas veias.É um homem, dizem algumas mulheres, como todos, infiel. Mas ele não é assim, ele transcende a fidelidade porque o seu compromisso é com a paixão.
